A noite de ontem, 9 de maio de 2013, ficou pra história de Fortaleza. E pra minha também. Me sinto na obrigação e na necessidade de compartilhar, com quem esteve e não esteve no Castelão ontem a noite, um pouco do que eu vi e senti.
Com hora de início marcada pras 21h, já imaginava o caos que seria o acesso ao estádio. Assim, cheguei o mais cedo que pude. Saindo do Centro da cidade às 16h, me acomodei no final da longa fila para as cadeiras superiores e inferiores às 17h15. A essa hora, Paul fazia a passagem de som, lá dentro, e a gente escutava meio abafado do lado de fora os primeiros acordes daquele dia... O sol se punha, a impaciência na fila era gigantesca, quem ainda se dirigia ao estádio certamente já estava em desespero... Mas o que quero falar aqui é do clima dentro do estádio.
Já na fila, gente de todas as partes (do pouco que vi, encontrei gente de Natal e de Belém, por exemplo) e de todas as idades. De 8 a 80 anos. Destaque pra uma família ao meu lado durante o show, mãe e duas filhas adolescentes - a mais nova não devia em nada às tietes beatlemaníacas de outrora. Gritou histericamente o show inteiro, e às lágrimas, deixou o Castelão em meio ao medley final.
Dentro do estádio, tranquilidade e muita paz. Nos minutos anteriores ao início, algumas holas feitas nas arquibancadas superiores já davam o tom da alegria cearense que marcaria o show. Apesar do show apenas ter começado às 21:30, com meia hora de atraso e com o público já um pouco impaciente, a vontade do cearense era extravasar suas energias da melhor maneira. Com muito som, alegria e emoção.
Quando Paul entrou no palco, o público veio abaixo. Sabe aquela sensação de imersão em um momento épico? Foi o que aconteceu ontem.
Eight Days a Week era apenas o começo da festa. Na segunda música, a única "decepção" que se pode destacar: o mosaico pretendido pela organização local do evento não funcionou. Talvez porque era o tipo de manifestação que só daria certo se nascido da criatividade dos fãs, e não da "ordem" dos organizadores do evento.
A cada canção, uma explosão de alegria. Em All My Loving, gritos e mais gritos como se estivéssemos de volta aos anos 60. Em Let me Roll it, um dos momentos mais esperados por este que vos escreve, guitarras, teclados e bateria mais que perfeitos. Paul e sua banda entregam o que é prometido, e muito mais. Gritei e pulei, talvez um bocado mais que os outros ao meu redor. Mas quer saber? Aquela noite era pra ser aproveitada da melhor maneira.
The Long and Winding Road foi talvez um dos primeiros momentos de forte emoção da noite. Pra muita gente, assim como eu, essa é uma das mais belas canções românticas do Fab Four. O momento dos casais apaixonados.
Paul sempre homenageia nos seus shows pessoas importantes para sua vida. A eterna Linda McCartney, a mulher da sua vida, em
Maybe I'm Amazed; sua atual esposa Nancy, em
My Valentine, seu sucesso mais recente; George Harrison em
Something, que começa suave, numa viola e vai num crescendo maravilhoso... e John Lennon, em duas canções onde, nesta tour, uma plataforma eleva Paul sozinho, a seis metros de altura, para tocar
Blackbird e
Here Today. Na primeira, um momento que pessoalmente me tocou: foi a primeira vez que se pôde escutar, de verdade, os 50 mil presentes ontem, cantarem a uma só voz junto com McCartney. Não sei se por causa dessa identificação do cearense com a canção, que é tema do Teveneno da TV Diário há tantos anos (rs), mas não costumo ver essa música com tanta participação do público em outros shows. Na segunda... bate uma emoção ao ouvir Paul lamentar a passagem de John.
Em All Together Now, o próprio Paul afirma que "canta para as crianças dentro de todos". E bota todo mundo pra pular e cantar, todos juntos. Em Eleanor Rigby, o coro era em uníssono: "Ah, look at all the lonely people..."... E em Hope of Deliverance, todo mundo dançou ao som dos quatro violões do hit dos anos 90 de Paul (que eu ouvia incansavelmente nos últimos dias...). Em Ob-La-Di, Ob-La-Da, pediu que o povo cantasse junto - e foi atendido. Ao final, McCartney começou a clássica interação com o público, fazendo sons repetidos pelo público (e no final, até um rosnado!)
Já perto do final do show, se ouvia o avião decolar... Era
Back in the U.S.S.R., mais uma que lembrava o tempo de delírio dos Beatles. Nesse momento, este que vos escreve estava já exausto de tanto pular e gritar...
Num dos momentos mais belos da noite, o Castelão apagado se iluminou com lanternas, celulares e câmeras em
Let it be. Um momento de fazer o mais duros amolecerem o coração.
Em seguida, um dos momentos mais esperados da noite.
Live and Let Die. Sim, amigos, os fogos são reais. No palco e acima do estádio. Tudo que já havia presenciado dezenas de vezes pela internet, eu pude ver em primeira mão. Talvez foi o momento em que o público mais gritou... o show pirotécnico é de tirar o fôlego. Não tenho palavras pra explicar o que senti... Apenas a vibração. Só vendo pra acreditar.
Obs: não encontrei ainda nenhum vídeo que mostrasse bem os fogos acima do estádio, que tornaram tudo ainda mais bonito!
Hey Jude foi o momento de catarse e maior interação com a plateia. Com homens e mulheres separados, e depois todos juntos, o coral do Castelão soltou seus balões verde-amarelos para saudar o ex-Beatle e agradecer pela sua passagem por aqui. Outra cena histórica da noite.
Depois de sair do palco por alguns instantes, a banda volta para o primeiro bis. Neste,
Day Tripper e
Get Back botam todo mundo pra dançar mais uma vez. E no final, Paul pergunta:
"Do you wanna get back?". Ao que o público grita
YES!, McCartney responde:
Okay. E deixa o palco com a banda novamente, para risadas de todos.
Na segunda volta, Paul vai ao violão pela última vez para tocar
Yesterday. Uma das canções mais regravadas da história, que serviria também de prévia pra um momento marcante para dois sortudos. Kenzo e Caroline, dois cearenses, e o
pedido de casamento mais falado da semana. Desejo toda a felicidade para o simpático casal :)
Depois, tivemos
Helter Skelter. E os fãs de todas as idades pularam como se fosse apenas o começo do espetáculo. A banda de Paul é perfeita. Rusty Anderson e Brian Ray são impecáveis nas guitarras, Paul Wickens nos teclados, escaleta e sanfona, e o meu favorito, Abe Laboriel Jr. simplesmente DETONA na bateria. Especialmente em momentos de maior peso como esse.
No encerramento, o medley final de Abbey Road.
Golden Slumbers/Carry That Weight/The End, músicas que sonhava um dia verem tocadas ao vivo pelo Sir. Depois de quase três horas, a despedida com uma das mais puras verdades tiradas das canções dos garotos de Liverpool.
"And, in the end, the love you take is equal to the love you make" (E, no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá).
Foram horas de emoção e alegria. Mesmo suando em bicas, ele não perdia o bom humor. Durante todo o show interagiu com a plateia, incluindo as sensacionais tiradas
"Vamo botar boneco!",
"Eita mah!" e
"Temos que vazar!".
Uma noite que talvez não se repita em Fortaleza. Mas da qual os mais de 50 mil presentes não esquecerão. E continuarão sonhando que se confirmem as últimas palavras de Paul no palco da Arena Castelão: "Nos vemos na próxima".